maio 5, 2026

A cratera que virou bairro na zona sul de São Paulo

Formada pelo impacto de um corpo celeste há milhões de anos na zona sul de São Paulo, a Cratera de Colônia se tornou objeto de estudo

Há entre 5 e 36 milhões de anos, um corpo sólido vindo de algum ponto do Sistema Solar atravessou o espaço interplanetário, rompeu a atmosfera terrestre em alta velocidade e colidiu violentamente com a superfície em uma área que hoje corresponde à região de Parelheiros, na zona sul da cidade de São Paulo. O impacto deu origem a uma enorme depressão circular, atualmente conhecida como Cratera de Colônia, uma das formações geológicas mais singulares do país.

Com cerca de 3,6 quilômetros de diâmetro, aproximadamente 300 metros de profundidade e bordas elevadas em até 120 metros, a cratera tornou-se, ao longo de milhões de anos, um verdadeiro arquivo natural da história ambiental da região. Sedimentos, restos vegetais e outros vestígios foram se acumulando no interior da formação, preservando registros que hoje despertam o interesse de cientistas dedicados ao estudo das mudanças climáticas e da evolução da Mata Atlântica.

Análises da cratera

Desde agosto, uma equipe formada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) vem realizando perfurações no local para acessar essas camadas sedimentares. O objetivo é reconstruir a evolução do clima tropical e da biodiversidade durante o Pleistoceno, período geológico que se estende de 2,58 milhões a 11,7 mil anos atrás.

Segundo os pesquisadores, os sedimentos acumulados na cratera podem fornecer um registro contínuo dos últimos 800 mil anos. A expectativa é que, por meio da análise desse material, seja possível entender como a Mata Atlântica avançou e recuou ao longo do tempo, como espécies surgiram e desapareceram, e de que maneira a floresta respondeu às oscilações climáticas globais.

O geólogo André Oliveira Sawakuchi, do Instituto de Geociências da USP e integrante do projeto, explica em reportagem da BBC que as variações na quantidade de energia recebida pela Terra a partir do Sol ocorrem em ciclos de aproximadamente 26 mil, 41 mil e 100 mil anos. Essas mudanças estão relacionadas a alterações na órbita terrestre e tiveram papel decisivo nos períodos glaciais e interglaciais do Quaternário.

A proposta do estudo é justamente comparar as transformações observadas na floresta com esses ciclos astronômicos. “A expectativa é que, com 50 metros de profundidade, consigamos reconstituir os últimos 800 mil anos da Mata Atlântica”, afirma Sawakuchi à rede britânica.

Análises da cratera

Até o momento, dois testemunhos — como são chamadas as amostras cilíndricas retiradas do solo e armazenadas em tubos de aço — já foram coletados. O material passou por uma análise preliminar na USP e está sendo enviado para a França, onde será aberto e submetido a estudos conduzidos por especialistas de diversas áreas.

Entre as técnicas empregadas para determinar a idade dos sedimentos estão datação por carbono 14, luminescência opticamente estimulada (OSL) e paleomagnetismo. A partir desses métodos, os pesquisadores pretendem estabelecer uma escala temporal precisa para correlacionar as mudanças climáticas às alterações na composição da floresta.

Além da datação, as análises incluem indicadores geoquímicos e biológicos, como composição mineralógica, isótopos, pólens, diatomáceas e fragmentos de carvão. Esses vestígios permitirão reconstruir a vegetação que ocupou a região em diferentes épocas e entender como ela respondeu às mudanças ambientais.

A pesquisadora Marie-Pierre Ledru, do IRD, destaca à BBC que o estudo pode preencher uma lacuna importante no conhecimento sobre florestas tropicais de baixa altitude. Segundo ela, ainda não existe um registro contínuo capaz de mostrar como a Mata Atlântica reagiu aos sucessivos ciclos glaciais e interglaciais do hemisfério norte.

Esquematização digital da cratera (em marrom) – domínio público

A história da própria cratera também é marcada por décadas de investigação científica. Descoberta no início da década de 1960 a partir de fotografias aéreas e, posteriormente, imagens de satélite, a formação teve sua origem debatida por muito tempo. Durante anos, cientistas consideraram duas hipóteses principais: o impacto de um corpo celeste ou a existência de um antigo vulcão extinto.

A confirmação da origem extraterrestre veio apenas recentemente. Em 2013, o geólogo Victor Velázquez Fernandez, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, reuniu evidências decisivas a partir de amostras obtidas em perfurações realizadas pela Sabesp, que buscava água potável no interior da cratera.

Nas análises microscópicas, foram identificadas alterações em minerais como quartzo e zircão, transformações que exigem pressões superiores a 40 quilobars e temperaturas próximas de 5.000°C — condições compatíveis com o impacto de um objeto vindo do espaço.

Os resultados foram publicados em 2015 no International Journal of Geosciences e levaram a Cratera de Colônia a integrar o Earth Impact Database, base internacional que reúne crateras de impacto comprovadas cientificamente. No mundo, há apenas 188 estruturas desse tipo reconhecidas, e a de São Paulo está entre as duas únicas atualmente habitadas.

Hoje, cerca de 40 mil pessoas vivem na região de Vargem Grande, dentro da cratera, o que torna o local ainda mais singular. Para os pesquisadores, no entanto, seu valor vai muito além da curiosidade geológica: trata-se de um laboratório natural capaz de revelar, em detalhes, a longa história climática e ecológica da Mata Atlântica.

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